quarta-feira, 25 de maio de 2011

Lenita, estreia do romancista Jorge Amado por Gilfrancisco


Lenita, novela escrita por Jorge Amado, Dias da Costa e Edison Carneiro, em sua juventude, publicada em folhetim em 1930 n’O Jornal, de Salvador, e um ano depois em volume pelo editor A. Coelho Branco Filho, no Rio de Janeiro, está completando 80 anos.

Durante as atividades desenvolvidas como pesquisador da Fundação Casa de Jorge Amado no ano de 1989, sendo o responsável pela localização e coleta de todo material escrito por Jorge Amado ou sobre ele, com intuito de copiar, fotografar os referidos textos encontrados nos arquivos públicos ou particulares, além de aquisição das primeiras edições nos sebos e em poder de colecionadores, para serem encaminhados ao DPDOC (Divisão de Pesquisa e Documentação) da FCJA, responsável pela guarda, conservação, organização e divulgação do acervo Jorge Amado, tive a oportunidade de ter em mãos inúmeros documentos do início da carreira do grande romancista baiano.

Foi durante esse período que localizei no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia a coleção do periódico O Jornal (1929-1930, incompleta). Infelizmente, após forte aguaceiro e consequentemente o desabamento de parte do telhado do IGHBA, algumas coleções foram perdidas, inclusive O Jornal, mas antes deste lastimável incidente copiei a novela El Rey, bem como todos os textos dos membros da Academia dos Rebeldes publicados na coluna “Jardim Suspenso”.   É dessa época a minha primeira leitura da novela. Hoje possuo uma cópia fornecida pelo amigo acadêmico Renato Berbert de Castro (1924-1999) extraída da edição em forma de livro, publicada em 1931.

Lenita é um livro que nasceu da experimentação literária juvenil de três autores baianos, Dias da Costa (1907-1979), Edison Carneiro (1912-1972) e Jorge Amado (1912-2001), entre o final da década de 20 e o início da década de 30. Ao que tudo indica, esta publicação não agradou muito aos leitores da época e certamente menos ainda aos seus autores. Em depoimento a Valdomiro Santana, Jorge  afirma que “minha primeira experiência de romancista foi um fracasso total; aliás, o fracasso foi também do Edison Carneiro e do Dias da Costa, porque em 1929 nos juntamos para escrever para O Jornal um romance folhetim, que era ruim demais,  publicado em livro um ano depois com o título de Lenita. Um romance tão ruim que precisou de três autores”.  Entrevistado pelo jornalista sergipano Joel Silveira, Jorge fala dessa influência, da semente que o tornaria um dos maiores romancista brasileiros: “Do ginásio caí no jornalismo e na literatura, na cidade de Salvador. Uma literatura danada. Foi por esse tempo que conheci Pinheiro Viegas, que veio a ter em minha vida uma influência decisiva. Era uma figura de mestre, um sujeito encantador”.



Dias da Costa, um dos autores dessa experiência, nos conta como foi produzido o pequeno monstro:  “Lenita foi uma aventura a três que teve consequências graves. Novela escrita na mesa de café gastava doze capítulos para contar a vida, a morte e a sobrevivência de uma prostituta barata, paixão de um sujeito sofisticado e de um arquiteto tuberculoso e exótico. Misto de Pitigrilli e Dumas Filho, a novela Lenita era uma perfeita hediondez. Pois bem, pior que Lenita, escrita de colaboração, foram os artigos perpetrados sobre ela. Publicada em folhetim, sob a cautela de pseudônimos, saiu sempre tão empastelada que durante meses constituiu para mim fascinante trabalho recortar do jornal, linha por linha, para pô-las em ordem, a fim de ler a história em letra de forma. Mas, apesar de tudo, íamos tomando gosto pela literatura à proporção que nos enfarávamos da literatice”.

Em socorro aos amigos massacrados pela crítica, principalmente a do sul do país, como a de Oscar Mendes publicada n’ O Estado de Minas em dezembro de 1931, que apontou vários defeitos na elaboração da novela. Por este motivo saem em suas defesas dois membros da Academia dos Rebeldes. Primeiramente o cronista Machado Lopes que inicia um pequeno artigo publicado em O Momento: “Não enveredarei absolutamente, pelos caminhos da crítica para escrever sobre Lenita. E isso não só porque sou despido de quaisquer pretensões a crítico, como também porque os nomes que fizeram Lenita surgir no teatro da literatura brasileira não precisam dessa corriqueira adjetivação de elogio, tão comum entre nós. Quero apenas congratular-me com a talentosa trindade criadora de Lenita.

Logo, ao ver Lenita, observei uma coisa interessante – fazia aparecer mais uma trindade. Teriam sido os seus autores influenciados pelo instinto, tão baiano, do tradicionalismo? – Não creio. E lembrei-me, então, de que os grandes acontecimentos ou as grandes criações sempre vêm ao mundo tangidas pelas mãos das trindades. E nelas há, sempre, o eterno mistério. A identificação do trio numa única pessoa ou num mesmo espírito é o fim por que se desencadeia toda a luta da humanidade”.  Já o poeta e cronista Alves Ribeiro  comenta a novela no nº 5 da revista O Momento, com um título bastante sugestivo, a Literatura do Sexo: “Lenita é a história de uma rameira de ínfima categoria que, tornada amante, de um momento para outro, do milionário Alberto Neves, se dá ao luxo de atirar-se em baixo de um automóvel ao ser possuída, em estado de sonolência, por um criado chinês (De resto, a cena é um pouco artificial, e desmente um poço a experiência sexual do autor do capítulo).

Nada mais banal, como se vê. O que torna a leitura interessante (para o público acostumado às diabruras fesceninas de Pitigrille e Dekobra) é a vida escandalosa e irresponsável das personagens da novela. Todas, sem exceção, formam uma bem cuidadosa galeria de psicopatas”.

A aventura de Lenita nasceu na mesa do café Bahia Bar, situado na Praça da Sé, que ficava defronte da velha Igreja da Sé, demolida em agosto de 1933. A novela chamava-se inicialmente El Rey. Cada um dos três autores escreveu quatro capítulos, com os seguintes pseudônimos: Jorge Amado (Y. Karl), Edison Carneiro (Juan Pablo) e Dias da Costa (Gluate Duval).  Os capítulos à proporção que eram escritos iam aparecendo em folhetim de O Jornal. Dias da Costa fez o primeiro capítulo. Edisontransparente camisola de dormir. Diz Jorge Amado que, devido a esta capa o livro teve grande vendagem entre os amantes de literatura fescenina.

Encontrar um exemplar dessa novela hoje seria um grande achado. É considerada uma preciosidade para colecionadores. Alguns dos raros exemplares de Lenita ainda sobrevivem na Bahia, certamente não são muitos. Tenho conhecimento da existência de pelo menos três exemplares da única edição de A. Coelho Branco Filho, 1931: um pertencente ao professor e acadêmico Waldir Freitas Oliveira; outro que se encontra no acervo de obras contemporâneas especiais do CEDIC – Centro de Documentação e Informação Central sobre a Bahia da Fundação Clemente Mariani e finalmente a edição pertencente a Jorge Amado que hoje faz parte do acervo da Fundação Casa de Jorge Amado. Waldir Freitas afirma da existência de mais dois exemplares da novela, um em poder do médico Newton Bastos, filho do poeta Elpidio Bastos, membro de grupo modernista baiano – Poetas da Baixinha, e outro em mãos de familiares do saudoso acadêmico Waldemar Matos.

Notas:

Salvador. Revisão Revista de
Sosigenes Costa. Revista Exu nº 15, maio/junho, 1990.   Neste artigo foram publicados vários textos localizados na coluna “Jardim Suspenso” de O Jornal.

2 Literatura Baiana (1920-1980).
Valdomiro Santana. Rio de Janeiro, Philobiblion/INL/ Fundação Nacional Pró-Memória, 1986.

3 O Grupo de Pinheiro Viegas fez o Modernismo na
Bahia. Santos Morais. Rio de Janeiro, Jornal Para Todos, Ano II- nº31, 2ª quinzena de agosto, 1957.

4 Salvador.
Lenita, Machado Lopes. O Momento n°4, 15 de outubro, 1931.

5 Salvador. A Literatura do Sexo, Alves Ribeiro. O Momentonº5, 15 de
novembro, 1931.

6 Jorge Amado publicou seus capítulos n’O Jornal em: 7, 12, 24 e 28 de
abril de 1930.  Dias da Costa republicou um capítulo na revista Etc. nº 168, 15 de julho, 1931, provavelmente o mês do lançamento do livro, período em que começa a aparecer publicidades de vendas na revista O Momento nº 1, julho, 1931.

7 Rio de Janeiro. Há quarenta anos na cidade do Salvador.  Jornal de Letras,
julho, 1967.

O Autor

Gilfrancisco é jornalista, professor universitário, membro do IHGSE e IGHBA.

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